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Biomédico Alexander Birbrair, capa da Science, volta para o Brasil

domingo, maio 08, 2016 0 Comentários


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Nosso colega biomédico, Dr. Alexander Birbrair, vencedor de vários prêmios (links), deixa os Estados Unidos e volta ao Brasil, mesmo em tempos difíceis aqui em nosso país.

Entenda o motivo, explicado por ele mesmo.

Alexander Birbrair

“Decidi voltar ao Brasil. Alguns colegas me perguntaram: por que voltar para o Brasil numa época de "crise", em vez de ficar aqui em Nova York, num dos institutos de pesquisa mais prestigiosos do mundo?

Tive um crescimento significativo na minha carreira e alcancei vários objetivos aqui, por isso tenho, sim, um carinho especial e sentimento de gratidão pelos Estados Unidos, mas nenhum lugar se compara ao Brasil. Por mais estranho que pareça, voltar foi uma decisão bastante fácil e lógica pra mim.

Vou tomar o exemplo de um jogador de futebol brasileiro jogando pela seleção de um outro país para tentar explicar o meu pensamento. Este jogador pode até se sentir realizado profissionalmente, mas na hora das vitórias, não ocorre aquela alegria no coração que decorre simplesmente da paixão pelo seu país. E vem o pensamento: seria muito melhor se essas vitórias fossem pelo meu país!

O Brasil é e sempre foi minha primeira opção. Se não desse certo eu montar o meu laboratório e continuar minhas pesquisas no Brasil, aí sim, analisaria a possibilidade de ficar nos Estados Unidos e abrir o meu laboratório aqui. Com o programa Ciência sem fronteiras, muitas pessoas saíram e têm a obrigação de retornar ao Brasil, pois firmaram um acordo/vínculo. Este não é o meu caso. O meu salário aqui sempre foi pago inteiramente por instituições americanas e, como minha esposa tem cidadania americana, eu tenho greencard, o que me possibilitaria ficar aqui o tempo que eu quisesse. Assim, muitas pessoas com as quais conversei prefeririam ficar nos EUA e não concordam com a minha decisão.

No entanto, esta não é a primeira vez que eu faço uma escolha não muito convencional. Algo similar ocorreu quando escolhi o curso de graduação. Eu tive sorte; encontrei minha vocação cedo. Apesar de ter passado em medicina na primeira fase na Universidade Federal do Ceará (UFC), sem participar da segunda fase, eu decidi ir a uma universidade menor no interior da Bahia, Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) para fazer biomedicina devido a minha paixão pela ciência.

E acho que eu acertei na minha escolha, pois estou feliz com minha carreira. Eu amo o que faço. Da mesma forma que você precisa escolher um bom colchão já que passa um terço da sua vida nele, escolher bem a nossa profissão é até mais importante, pois os outros dois terços (às vezes até um pouco mais) passamos ocupados com ela.

Desde pequeno aprendi com os meus pais a acreditar e confiar fortemente em mim e nas minhas escolhas. Isto traz confiança em seguir o nosso coração e a nossa intuição, mesmo que isto nos leve às vezes a caminhos longe daqueles esperados; e isto é o que pode fazer toda a diferença. Eu acredito no meu taco e me responsabilizo por todas as minhas escolhas. Da mesma forma que escolhi a biomedicina em vez da medicina, e a pesquisa em vez de clinicar, escolher agora vir fazer ciência no Brasil em lugar de continuar fazendo ciência nos Estados Unidos pode não parecer uma opção muito atrativa para alguns, mas eu espero poder mostrar o contrário.

A ciência do Brasil, em minha opinião está em um nível muito bom e crescendo cada vez mais: é um privilégio tentar participar desse crescimento. Conseguir seguir os passos de grandes cientistas brasileiros que já fazem ciência de altíssima qualidade no Brasil e se destacam mundialmente é o objetivo a ser alcançado.

Sempre sonhei poder conciliar ser cientista e professor universitário como meus pais fazem. Nos Estados Unidos, na maior parte dos grandes centros de pesquisa, os pesquisadores são somente cientistas. Isso poderia ser visto como uma vantagem, mas eu vejo vantagens em ser professor universitário e pesquisador. O meu pai sempre conta uma piada sobre dois professores que estão conversando e um diz pro outro: ‘Você sabe, os meus alunos são tão fracos, mas tão fracos que até eu já entendi tudo e eles nada’.

Bom, o que isso nos mostra é que ensinar não é um ato somente de doação, pelo contrário nós recebemos muito em troca, às vezes até mais do que doamos. A cada palestra que eu dou, acabo aprendendo algo novo. Perguntas vindas dos ouvintes, e diferentes maneiras de preparar as palestras para diferentes tipos de ouvintes acabam me forçando a pensar mais naquilo que fazemos. Isso às vezes pode levar a novas descobertas. Assim, quanto mais o professor ensina, mais ele aprende e mais se aprofunda em seu próprio conhecimento. Por isso, vejo como uma vantagem o fato de no Brasil os pesquisadores também serem professores universitários. Além disso, a minha paixão pela ciência vem em parte desse contato com pesquisadores de verdade já muito cedo na época da graduação.

Nos Estados Unidos a vida profissional é bem intensa. Isto é muito bom, mas também traz desvantagens. Por exemplo, as reuniões de família aqui ocorrem somente uma vez por ano no Thanksgiving; já no Brasil, a maior parte das famílias tem reuniões semanais ou pelo menos mensais. Isso pode fortalecer um profissional emocionalmente, o que o levará a render mais. Claro que há vantagens nos Estados Unidos, mas vejo muitas vantagens no Brasil também. Há muitos cientistas brasileiros renomados que admiro que têm publicado artigos nas melhores revistas científicas do mundo.

A principal diferença que vejo entre os Estados Unidos e o Brasil é no investimento que se faz em ciência. Acredito que se esse investimento fosse equivalente, o Brasil facilmente estaria na frente. Como as vantagens dos Estados Unidos são principalmente econômicas, isso pode ser mudado no Brasil investindo-se mais na ciência e nos cientistas que já estão no país fazendo trabalhos maravilhosos e publicando em revistas internacionais muito importantes em diversos campos da ciência.

Eu sempre sonhei em ser cientista e espero conseguir cada vez mais apoio para o progresso da ciência no Brasil, que já está em altíssimo nível. Pretendo trazer as coisas que aprendi nos Estados Unidos para o Brasil.

Infelizmente a maior parte dos meus contatos e colaboradores até agora eram dos Estados Unidos e da Europa, mas espero fazer vários contatos e formar colaborações firmes e frutíferas com pesquisadores brasileiros.

A melhor estratégia seria tentar manter os contatos que temos fora para ter apoio de qualquer coisa que necessitamos, como reagentes ou tecnologias que não haja ainda no Brasil. Além disso, descobrir maneiras de tentar trazer da forma mais eficiente reagentes/equipamentos para o Brasil é uma das prioridades. E também tentar implementar este intercâmbio que já ocorre em vários laboratórios brasileiros, de mandar pesquisadores do nosso laboratório pra fora, como também receber pesquisadores de fora no Brasil, para ter essa troca ativa de conhecimento.

Acredito que os alunos brasileiros são de altíssima qualidade. E, pelo menos o que eu tenho visto aqui fora, é que a maioria dos grandes cientistas trabalhando nos Estados Unidos são estrangeiros, e grande parte destes são latinos, incluindo muitos brasileiros que brilham aonde chegam. Então, temos que valorizar isso. Ou seja, a formação no Brasil é boa sim, e isso tem que ser aproveitado.

Nos Estados Unidos há muitas parcerias entre empresas e universidades; eu fico muito contente de que isto esteja sendo implementado no Brasil também. Em todos os laboratórios pelos quais passei ou que conheci nos Estados Unidos, parte da verba do laboratório vinha de parcerias desse tipo.

Resumindo, espero em breve poder transferir todas as minhas pesquisas para a UFMG, que parece um lugar ideal para fazer este tipo de pesquisa. Estou super empolgado e cheio de energia para me doar a esse projeto.

No momento, estou planejando montar um grupo forte e buscar pessoas com alta motivação e potencial que queiram realmente avançar dentro da nossa área de pesquisa.

Os principais temas que vamos estudar são os seguintes:

  • Estudo do microambiente celular do tumor, principalmente em tumores de próstata e mama.
  • Estudo das funções do sistema nervoso periférico (autonômico e sensorial) afetando o funcionamento de células tronco como também de outros tipos celulares.
  • Estudo da função dos pericitos e de células tronco em diversos processos patológicos nas doenças tropicais, como doença de Chagas, leishmaniose etc.
  • Estudo da biologia das células tronco de diversos tecidos incluindo SNC.
  • Transplantes de células, tecidos e órgãos.

Os candidatos devem:

  • ter experiência com biologia celular ou áreas afins.
  • ser capazes de fazer parte de uma equipe multidisciplinar, pensar criticamente e de forma independente.
  • dominar o inglês.

Os candidatos interessados podem enviar o currículo e uma pequena declaração descrevendo suas metas profissionais para birbrairlab@gmail.com.”

Texto escrito por Dr. Alexander Birbrair

Brunno Câmara Biomédico

Biomédico, CRBM-GO 5596. Especialista em Hematologia e Hemoterapia pelo programa de Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas - UFG (HC-UFG). Criador e administrador do blog Biomedicina Padrão. Criador e integrante do podcast Biomedcast (biomedcast.com).