Hemoglobina glicada e diagnóstico do Diabetes Mellitus

Por Brunno Câmara · Publicado em

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A hemoglobina glicada, também conhecida como HbA1c, é formada pela ligação não enzimática da glicose à hemoglobina presente nas hemácias. 

Como esse processo ocorre continuamente durante a vida do eritrócito, a quantidade de HbA1c guarda relação com a exposição do organismo à glicose ao longo do tempo. 

Por isso, enquanto a glicemia representa a concentração de glicose em um determinado momento, a HbA1c fornece uma estimativa da glicemia média dos últimos dois a três meses.

Essa característica tornou a HbA1c um marcador particularmente útil tanto no acompanhamento do controle glicêmico quanto no diagnóstico do diabetes mellitus. 

Uma de suas principais vantagens é não exigir jejum e sofrer menos influência das oscilações agudas da glicemia. 

Além disso, apresenta menor variabilidade intraindividual do que a glicemia de jejum e a glicemia obtida após sobrecarga oral de glicose. 

Por outro lado, seu resultado depende não apenas da glicemia, mas também de fatores relacionados à hemoglobina e à sobrevida das hemácias.

HbA1c no diagnóstico do diabetes mellitus

Segundo a Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, a HbA1c pode ser utilizada como um dos critérios laboratoriais para o diagnóstico do diabetes mellitus. Os valores são interpretados da seguinte forma:

HbA1c Interpretação
< 5,7% Normal
5,7 a 6,4% Pré-diabetes
≥ 6,5% Critério para diabetes mellitus

O valor de HbA1c ≥ 6,5% é, portanto, considerado compatível com diabetes mellitus. 

Entretanto, em uma pessoa sem hiperglicemia inequívoca, um único resultado alterado deve ser confirmado. 

Quando a glicemia de jejum é ≥ 126 mg/dL e a HbA1c é ≥ 6,5% na mesma amostra, a combinação dos dois exames pode estabelecer o diagnóstico.

É importante lembrar que a HbA1c não é o único exame disponível para esse propósito. 

O diagnóstico também pode ser realizado pela glicemia de jejum, pelo teste oral de tolerância à glicose e, em pacientes com sintomas típicos de hiperglicemia, pela glicemia plasmática ao acaso. 

A diretriz brasileira considera ainda a glicemia de 1 hora após sobrecarga de 75 g de glicose como critério diagnóstico.

Aspectos laboratoriais da HbA1c

Para que a HbA1c seja utilizada com finalidade diagnóstica, a qualidade analítica é fundamental. 

A metodologia deve apresentar rastreabilidade e padronização adequadas. 

A padronização internacional foi estabelecida a partir de métodos de referência e da certificação pelo National Glycohemoglobin Standardization Program (NGSP) permitindo que os resultados laboratoriais sejam comparáveis aos utilizados nos grandes estudos clínicos, como o DCCT.

Diferentes tecnologias podem ser empregadas para a determinação da HbA1c, incluindo cromatografia líquida de alta eficiência, imunoensaios, métodos enzimáticos e outras plataformas automatizadas.

Independentemente da metodologia utilizada, o laboratório deve conhecer suas características analíticas, possíveis interferentes e limitações.

Do ponto de vista pré-analítico, a HbA1c apresenta uma vantagem importante sobre a glicemia de jejum: o paciente não precisa estar em jejum para a coleta. 

Também é menos influenciada por alterações glicêmicas transitórias relacionadas, por exemplo, à alimentação imediatamente anterior à coleta.

Mas, isso não significa que a HbA1c seja um exame livre de interferências.

Quando a HbA1c pode não representar adequadamente a glicemia

A interpretação da HbA1c pressupõe uma relação relativamente estável entre concentração de glicose, glicação da hemoglobina e tempo de permanência das hemácias na circulação. 

Qualquer condição que altere essa relação pode produzir resultados discordantes da glicemia real.

A Sociedade Brasileira de Diabetes chama atenção para situações como:

Esse aspecto é particularmente importante para o laboratório clínico. 

Quando o resultado da HbA1c é incompatível com as glicemias do paciente ou com o quadro clínico, não se deve interpretar o número de forma isolada. 

É necessário investigar possíveis condições que estejam alterando a vida média das hemácias ou interferindo no método analítico.

HbA1c e glicemia de jejum não medem exatamente a mesma coisa

Apesar de frequentemente apresentarem correlação, glicemia de jejum e HbA1c fornecem informações diferentes. 

A glicemia de jejum representa a homeostase da glicose no momento da coleta, após período sem ingestão calórica, enquanto a HbA1c representa uma exposição glicêmica mais prolongada.

Por esse motivo, pode ocorrer discordância entre os exames. 

Um paciente pode apresentar glicemia de jejum abaixo do limite diagnóstico e HbA1c elevada, ou o contrário. 

A própria diretriz ressalta que os dois marcadores devem ser considerados complementares, e não simplesmente equivalentes.

Essa diferença também explica por que a HbA1c apresenta elevada especificidade, mas sensibilidade relativamente menor para detectar todos os casos de diabetes identificados pelo teste oral de tolerância à glicose. 

Utilizando o ponto de corte de 6,5%, a diretriz relata sensibilidade em torno de 47% a 67% em comparação ao TTGO de duas horas, enquanto a especificidade fica próxima de 98% a 99%. 

Assim, uma HbA1c abaixo de 6,5% não exclui obrigatoriamente diabetes em indivíduos com forte suspeita clínica ou elevado risco metabólico.

Importância clínica

A grande utilidade da HbA1c está em integrar, em um único marcador, informações que a glicemia isolada não consegue fornecer. 

Além de participar do diagnóstico, ela permite acompanhar a exposição crônica à hiperglicemia e avaliar a resposta ao tratamento ao longo do tempo.

Do ponto de vista clínico, essa informação é particularmente relevante porque a hiperglicemia crônica está associada ao desenvolvimento das complicações do diabetes. 

O ponto de corte diagnóstico de 6,5% não foi escolhido por acaso. 

Ele foi estabelecido a partir de estudos populacionais que demonstraram aumento importante da ocorrência de retinopatia diabética a partir de determinados níveis de HbA1c e glicemia.

Por isso, a HbA1c deve ser entendida como muito mais do que uma simples “média da glicose”. 

Trata-se de um marcador bioquímico que reúne utilidade diagnóstica, prognóstica e de monitoramento, desde que suas limitações sejam conhecidas e o resultado seja interpretado juntamente com os demais dados laboratoriais e clínicos.

Um cuidado importante na interpretação

No laboratório, uma HbA1c aparentemente incompatível com o quadro do paciente deve levantar uma pergunta antes da liberação ou interpretação clínica:

Esse valor realmente representa a exposição glicêmica do paciente ou existe algum fator modificando a concentração de HbA1c?

Essa abordagem é especialmente importante em pacientes com anemia, hemoglobinopatias, transfusões recentes, doença renal ou outras condições que possam modificar a renovação eritrocitária. 

Nesses casos, glicemia plasmática e, quando indicado, o TTGO podem fornecer informações mais confiáveis para a investigação diagnóstica.

Referência

Melanie Rodacki, et al. Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024). DOI: 10.29327/5412848.2024-1, ISBN: 978-65-272-0704-7.

Brunno Câmara, biomédico e autor do Biomedicina Padrão
SOBRE O AUTOR

Brunno Câmara

Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em Patologia Clínica e Hematologia. Responsável técnico e gestor da qualidade no Laboratório Clínico do HC-UFG/HU Brasil. Especialista em Hematologia e Hemoterapia e mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro. Atua também na formação de biomédicos e é criador do Biomedicina Padrão.


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