Biomédicas relatam como é a Residência em Saúde Coletiva da UFRGS

Por Brunno Câmara - quinta-feira, setembro 17, 2020



📚🔬 Apostilas e Livro Digitais

Utilize nossas apostilas digitais como material complementar aos seus estudos - hematologia, anemias, leucemias, uroanálise, parasitologia e líquor.


O presente relato partiu da lacuna observada durante nosso período de graduação a respeito do papel do biomédico na saúde pública.

Segundo o CRBM-5, a habilitação em Saúde Pública compreende as seguintes dimensões: 

  • O estado de saúde da população ou condições de saúde de grupos populacionais específicos e tendências gerais do ponto de vista epidemiológico, demográfico, socioeconômico e cultural; 
  • Os serviços de saúde, enquanto instituições de diferentes níveis de complexidade (do posto de saúde ao hospital especializado), abrangendo o estudo do processo de trabalho em saúde, a formulação e implementação de políticas de saúde, bem como a avaliação de planos, programas e tecnologias utilizadas na atenção à saúde; 
  • O saber sobre a saúde, incluindo investigações históricas, sociológicas, antropológicas e epistemológicas sobre a produção de conhecimentos nesse campo e sobre as relações entre o saber “científico” e as concepções e práticas populares de saúde, influenciadas pelas tradições, crenças e cultura de modo geral.

Este relato foi escrito por duas biomédicas, atualmente residentes do primeiro ano no Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ambas com experiências bastante distintas na área.

Escolhendo a área de Saúde Coletiva

Rayssa, Paulista, com primeira habilitação em Análises Clínicas e formada por uma universidade privada e Bruna, Catarinense, com primeira habilitação em Farmacologia, formada em universidade pública com enfoque na carreira acadêmica.

Ambas concordam que sua formação, de uma forma ou de outra, deixou a desejar no quesito Saúde Pública, forçando-as a buscar sozinhas os seus próprios caminhos. 

Houve bastante dificuldade em encontrar informações e oportunidades na área, mesmo sendo possível de acordo com os órgãos superiores.

O processo entre a decisão por Saúde Pública e a residência de fato, teve muitos obstáculos. 

Primeiro, pela falta de contato com o tema durante o curso e segundo pela falta de vagas para biomédicos em programas de Residência em Saúde Coletiva. 

Preparação para o processo seletivo

A preparação para a prova envolveu experiências particulares: Rayssa fez aprimoramento em Saúde Coletiva ainda em São Paulo e Bruna fez estágio obrigatório em uma Unidade Básica de Saúde em Porto Alegre. 

Experiências tais que proporcionaram conhecimentos básicos, instrumentos que facilitaram o estudo para a prova de admissão no Programa e afloraram ainda mais a vontade de contribuir como profissionais de saúde pública no Brasil.

Atividades realizadas

Diferente do que se imagina normalmente o trabalho de um biomédico, nossa realidade é distante das quatro paredes de um laboratório. 

O primeiro ano de residência em Saúde Coletiva se dá na atenção primária em saúde do município de Porto Alegre e tem nos proporcionado experiências de assistência, gestão e vigilância em saúde. 

Estamos situadas em Unidades Básicas de Saúde diferentes, porém com contextos de vulnerabilidade em comum. 

As duas participam ativamente do monitoramento de indicadores de saúde, especialmente envolvendo a pandemia de COVID-19. Além disso, colaboram com a elaboração de materiais de promoção à saúde e educação popular. 

Rayssa, após vivenciar o contexto da assistência à saúde (consultas, visitas domiciliares, dispensação de medicamentos, sala de vacina, testes rápidos), está se inserindo na gestão da Unidade, participando da organização de fluxos, profissionais, materiais, reuniões e do próprio território. 

Bruna, diferentemente, devido a outras necessidades da Unidade no momento, partiu diretamente para a gestão, produzindo materiais de educação popular e permanente (ou seja, capacitação dos demais profissionais), redefinindo fluxos e mapas de território, fazendo controle de metas, elaborando estratégias de aprimoramento da qualidade no cuidado e de vinculação profissional-paciente nos atendimentos na Unidade.

As práticas em Saúde Coletiva levam em consideração as questões sociais e históricas das pessoas e do território, ou seja, a saúde física e mental dos indivíduos vai muito além do conceito biomédico popularizado. 

A residência multiprofissional não se limita às atividades de núcleo, portanto cada profissional, independente da sua formação, carrega o conceito de Saúde Coletiva em todas as suas ações, de forma a contribuir para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para a saúde da população de maneira ampla. 

Por este motivo, estamos também envolvidas com projetos de horta comunitária, tenda sanitária, cartilhas com informativos para a população, diferentes formas de comunicação mais próxima da comunidade através do uso de tecnologias (como WhatsApp e Instagram), considerando também povos imigrantes e pessoas com deficiências, entre outros.

Perspectivas

Como futuras sanitaristas, almejamos conseguir um espaço na gestão de unidades de atenção primária à saúde, onde nosso coração bate mais forte. 

Nossa experiência na Biomedicina nos trouxe uma boa bagagem de conhecimento biomédico de saúde (órgãos, doenças, equipamentos e fármacos), entretanto, a Saúde Coletiva nos ensinou que a saúde está para além do corpo físico e que falar neste tema envolve também minimizar desigualdades, cuidar das emoções e estimular a participação da comunidade.

Autoras do texto

Bruna dos Santos - Biomédica especialista em Saúde Pública (CRBM 5460).
Contato: biobrunasantos@gmail.com

Rayssa Colegnac - Biomédica sanitarista (CRBM 32626).
Contato: rayssacolegnac@yahoo.com.br

Brunno Câmara Autor

Brunno Câmara - Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em patologia clínica e hematologia. Docente do Ensino Superior. Especialista em Hematologia e Hemoterapia pelo programa de Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas - UFG (HC-UFG). Mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (área de concentração: virologia). Coordenador e docente do curso de pós-graduação em Hematologia e Hemoterapia da AGD Cursos. Criador e administrador do blog Biomedicina Padrão. Criador e integrante do podcast Biomedcast.
| Contato: @brunnocamara |