O futuro da Biomedicina está em nossas mãos

Por Brunno Câmara - quinta-feira, janeiro 17, 2019


Converse com algum biomédico mais velho, que trabalhou com análises clínicas nas décadas de 80 e 90, e você verá como tudo mudou drasticamente.

Imagine um laboratório cheio de analistas clínicos e técnicos pipetando (inclusive com a boca) amostras e reagentes, centrifugando amostras, bancada cheia de tubos com reações incubando, espectrofotômetros, vários microscópios, câmara de Neubauer e muitos exames para serem feitos.

Com o passar do tempo, a tecnologia e a automação foram avançando e chegaram de vez no laboratório, substituindo a maior parte dos processos anteriormente realizados pelos analistas e técnicos.

Isso refletiu-se na diminuição da mão de obra necessária para a realização dos exames. O que antes demandava vários profissionais para chegar a um laudo, hoje temos o resultado em menos de 5 minutos.

O nosso papel hoje no laboratório mudou. Temos que garantir que o equipamento esteja funcionando perfeitamente, fazendo as manutenções diárias, passando e analisando o controle de qualidade. Com isso, ganhamos mais tempo para liberar os laudos e analisar os casos mais complexos, que demandam atenção.


Mas, se você acha que os avanços pararam por aqui, está enganado. Muitas mudanças estão vindo, numa velocidade cada vez maior.


A Biomedicina de hoje

Sabemos que temos várias outras área de atuação, como imagenologia, estética, perfusão, docência, pesquisa científica, etc.

Porém, todas essas áreas podem ser otimizadas ou até mesmo substituídas pelas novas ferramentas computacionais.

Então, você deve se atentar para isso o quanto antes. E, sinto te informar, mas as faculdades não estão preparando os alunos para esse futuro, que não está tão distante assim.

E o cenário não está bom. O número de vagas de emprego para nossa profissão, principalmente em análises clínicas, não aumentou proporcionalmente à grande quantidade de novos profissionais que se formam todos os anos.

A conta não fecha: alta oferta de profissionais e baixa oferta de vagas.


A Biomedicina do futuro

Aqui, falo não somente sobre o futuro da biomedicina, mas sim de todas as profissões. Sim, todas as profissões irão passar por grandes mudanças.


Relacionado: O futuro do trabalho na saúde | Biomedcast


Você já deve ter ouvido ou lido em algum lugar: as crianças de hoje trabalharão em profissões que ainda nem se quer existem.

O que as empresas precisarão no futuro são profissionais com as seguintes habilidades:

  • Resolução de problemas complexos
  • Pensamento crítico
  • Criatividade
  • Liderança e gestão de pessoas
  • Trabalho em equipe
  • Inteligência emocional
  • Julgamento e tomada de decisões
  • Orientação a serviços
  • Negociação
  • Flexibilidade cognitiva
Por que essas habilidades? Por que elas são exclusivas de seres humanos e não podem ser substituídas por algoritmos, computadores, robôs etc.

Então, cabe a você perceber quais habilidades tem e quais devem ser melhoradas para se garantir no mercado.


Onde o biomédico se encaixará

Se eu pudesse dar um conselho a vocês, seria para estudarem sobre inteligência artificial (IA).



Apesar de soar como algo muito futurista, ela já está entre nós. Inclusive na área da saúde.

E não ache que ela é sinônimo de robôs, iguais aqueles de filmes. Muitas vezes, a IA está presente em forma de código, os algoritmos.

Confira a seguir algumas áreas que indico para quem quiser acompanhar as tendências mundiais.


Ciência de dados

Cada vez mais geramos e acumulamos muitos dados. Estamos na era do big data. Porém, os dados por si só não dão muita informação.

Eles precisam ser analisados por profissionais, os cientistas de dados, que irão lapidá-los e extrair informações preciosas.

A habilidade mais importante para esse profissional é a criatividade.

Além disso, é necessário saber linguagem de programação (facilmente aprendida em cursos online), como Python e R.

Você como biomédico pode sim ser um cientista de dados. Basta estudar e ser criativo. É o que estou fazendo atualmente. Nunca é tarde para aprender novas habilidades.

Quer um exemplo de um biomédico que é pioneiro nessa área? O Onício Neto, que criou uma startup, a Epitrack, para análise de dados epidemiológicos.


Aprendizado de máquina

Recentemente, publiquei aqui uma notícia de pesquisadores que tinham desenvolvido um app que estima os níveis de hemoglobina de uma pessoa a partir de imagens da unha.

Como isso é possível? Por meio da ferramenta de IA, chamada de aprendizado de máquina (machine learning).

Como o nome sugere, você treina um algoritmo para reconhecer determinados padrões nos dados, como imagens por exemplo, e cada vez que ele é alimentado com novos dados, vai ficando cada vez melhor em predizer os resultados.

E se você procurar por artigos científicos, vai encontrar muitos estudos aplicando o aprendizado de máquina na área da saúde.


Bioinformática

A Bioinformática pode nem ser uma novidade para você. Mas cada vez mais são necessários profissionais para analisar os dados gerados.

Essa área é semelhante à ciência de dados, porém é mais específica para dados genéticos e moleculares, como sequências de DNA, RNA, proteína etc.

Sem análise e interpretação, os dados na bioinformática são apenas letrinhas num grande livro. Entender o que elas significam é papel do Bioinformata.

É uma área muito utilizada em pesquisas científicas, sendo necessário conhecimento de linguagens de programação, como o R, além de genética e biologia molecular.

Conclusão

Se não começarmos a mudar como atuamos na biomedicina, poderemos estar fadados a uma possível extinção da profissão.

Então, fique antenado com o que há de mais novo do mundo e vá para outros caminhos.

Vamos juntar nosso conhecimento específico, adquirido durante a graduação, com outras áreas, como a de informática e computação, e vamos ser profissionais do futuro!

A mudança não será fácil, mas se faz extremamente necessária.

Não se preocupe, irei começar uma série de posts aqui no blog sobre esses assuntos, para podermos discutirmos e termos novas ideias. Fique ligado!

Leitura recomendada: Artificial intelligence in healthcare. Nature Biomedical Engineering 2018 [link].

Brunno Câmara Autor

Brunno Câmara - Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em patologia clínica e hematologia. Docente do Ensino Superior. Especialista em Hematologia e Hemoterapia pelo programa de Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas - UFG (HC-UFG). Mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (área de concentração: virologia). Coordenador e docente do curso de pós-graduação em Hematologia e Hemoterapia da AGD Cursos. Criador e administrador do blog Biomedicina Padrão. Criador e integrante do podcast Biomedcast.
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