VDRL em líquor e neurossífilis

Por Brunno Câmara - quarta-feira, outubro 20, 2021


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Neurossífilis

A neurossífilis ocorre quando há infecção do sistema nervoso central (SNC) em um paciente com sífilis.

A invasão de T. pallidum no SNC ocorre em 30-40% dos pacientes com sífilis primária e secundária.

A meningite (inflamação das meninges) é a principal forma de manifestação clínica neurológica.

Em pacientes com sífilis terciária, o acometimento do SNC ocorre após 5 a 35 anos após a infecção. Além da meningite sifilítica, outras manifestações podem ocorrer, como:

  • Paralisia espástica de Erb
  • Sinais neurológicos focais
  • Afasias (distúrbio de linguagem)
  • Hemiplegias (paralisia em um dos lados do corpo)
  • Tabe dorsal (degeneração de neurônios)
  • Demência paralítica

Num paciente com sífilis, encontrada qualquer evidência de envolvimento do SNC, ou alterações sugestivas de sífilis terciária, uma avaliação do líquido cefalorraquidiano (LCR / líquor) deve ser realizada.

O mesmo vale para pacientes HIV positivos com VDRL sérico com títulos  ≥ 1/32 e contagem de linfócitos T CD4 ≤ 350/mL.

Não há um único teste laboratorial para o diagnóstico definitivo de neurossífilis. Então, deve-se analisar em conjunto:

  • Manifestações clínicas
  • Sorologia
  • Análise laboratorial do LCR
  • VDRL do LCR

VDRL no líquor

Como vimos, para confirmar o diagnóstico de neurossífilis é essencial que seja feito o VDRL no LCR do paciente infectado.

Informações analíticas

O VDRL é o único teste não treponêmico que pode ser utilizado em amostra de LCR.

Ou seja, os testes RPR, USR e TRUST não devem ser usados.

É importante checar na bula do reagente de VDRL se ele pode ser usado na análise do LCR ou somente de soro.

A amostra de LCR deve ser centrifugada e não precisa ser inativada, procedimento realizado no soro.

Se a amostra continuar turva, ou estiver hemolisada, não pode ser usada. Deve ser solicitada uma nova amostra.

Se não for possível obter uma nova amostra, e se o médico solicitante concordar, pode-se fazer um teste treponêmico, como o FTA-abs. Mas, se o resultado for reagente, o VDRL deverá ser realizado.

Atenção: a análise de VDRL no LCR tem uma alta porcentagem de resultados falso-negativos (baixa sensibilidade analítica).

Interpretação

Valor de referência para o VDRL no LCR: negativo / não reagente (todas as idades).

Um VDRL positivo no LCR é altamente específico para neurossífilis. Além disso, amostras com resultados positivos devem ser tituladas.

Adicionalmente, são encontrados no líquor proteínas elevadas e leucócitos aumentados (pleocitose).

Um único resultado negativo não exclui a neurossífilis. Caso necessário, uma nova amostra de LCR deve ser coletada e analisada.

Alguns especialistas recomendam também a realização do FTA-abs no LCR.

  • VDRL: baixa sensibilidade analítica, porém elevada especificidade para neurossífilis
  • FTA-abs: baixa especificidade para neurossífilis, porém elevada sensibilidade analítica (um resultado negativo exclui a neurossífilis)

Referências

Martins, M. de A., et al. (2016). Clínica Médica: alergia e imunologia clínica, doenças de pele, doenças infecciosas e parasitárias. Barueri, SP: Manole.

Mayo Clinic Laboratories. VDRL, Spinal Fluid (acesso em 10/2021).

Medscape. Syphilis Workup, 2017 (acesso em 10/2021).

Brasil. Ministério da Saúde. Manual Técnico para Diagnóstico da Sífilis. Brasília - Ministério da Saúde, 2016.

Telelab. Ministério da Saúde. Aula 3 - Reação de VDRL em amostras de líquor - Ministério da Saúde, 2014.

Marra CM, Maxwell CL, Smith SL, et al. Cerebrospinal fluid abnormalities in patients with syphilis: association with clinical and laboratory features. J Infect Dis. 2004;189(3):369-376. doi:10.1086/381227

Brunno Câmara Autor

Brunno Câmara - Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em patologia clínica e hematologia. Docente do Ensino Superior. Especialista em Hematologia e Hemoterapia pelo programa de Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas - UFG (HC-UFG). Mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (área de concentração: virologia). Criador e administrador do blog Biomedicina Padrão. Criador e integrante do podcast Biomedcast.
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