Alunos contam como foi fazer Biomedicina em meio à Pandemia

Por Brunno Câmara - sexta-feira, dezembro 11, 2020



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Sabemos que a pandemia fez com que muitas coisas nas nossas vidas sofressem mudanças.

A área de educação foi uma das mais modificadas, já que não era mais possível agrupar muitos alunos numa mesma sala de aula.

Com a graduação de Biomedicina, não foi diferente. As instituições tiveram que se virar nos 30 para poder seguir com as aulas. Muitas foram para o online e EAD.

Algumas fizeram isso de maneira efetiva, já outras deixaram a desejar.

Ouvi alguns dizerem que, por causa desta pandemia, haverá uma geração de "biomédicos teóricos" em breve no mercado. Mas será que é assim mesmo?

Veja a seguir, sob o ponto de vista do aluno, relatos de como foi fazer biomedicina em 2020.

Avaliação geral

Após eu pedir para que vocês me enviassem seus relatos, 198 pessoas preencheram o formulário disponibilizado.

Período de apuração: entre 4 e 9 de dezembro de 2020.

Desse total, 79,3% disseram que a pandemia prejudicou sim sua formação. 5,1% acham que não ficaram prejudicados e 15,7% acham que talvez houve algum prejuízo.


A maioria que respondeu o formulário estava da metade para o final do curso:

  • 1º ao 4º período: 32,8%
  • 5º ao último período: 56,5%
  • Recém-formados: 10,6%

Aulas teóricas e práticas

Alguns alunos relataram que as aulas foram suspensas e não têm previsão para voltar.

Outros, afirmaram que as aulas teóricas foram todas online e que o aproveitamento foi muito baixo.

"Não tive aulas práticas. As aulas teóricas foram todas online, e não foram proveitosas".

Poucos alunos afirmaram que tiveram aulas práticas presenciais. Alguns relataram que ainda não tiveram aulas práticas neste ano.

"Uma porcaria até agora, não tive absolutamente nenhuma prática e as teóricas todas 'jogadas'".

Além disso, a maioria relatou que teve aulas práticas virtuais/online, com o professor demonstrando as práticas em vídeo.

"Horrível, tive aula prática online".

"As aulas práticas no laboratório virtual não me agradaram. Eu não aprendi muito. Se fosse presencial, acho que teria aprendido e armazenado mais as informações". 

Algumas instituições ofereceram reposição das aulas práticas, em turmas e horários reduzidos.

Um grande problema foi em relação ao ambiente doméstico de estudo e como as aulas são ministradas.

"...a aula é dada como se fosse no presencial (prof explica e alunos escutam) e sem nenhuma inovação, isso prejudica os discentes, porque no ambiente doméstico há vários fatores que atrapalham o entendimento da matéria, como barulho, material tecnológico, falta de concentração, falta de local apropriado para estudos..."

Muitos alunos relataram que estão desanimados com essa situação e outros sentem que estão despreparados.

"...as aulas teóricas no início são ok, depois ficam extremamente cansativas. Parece que você tá pegando o conteúdo mas chega na prova e você não absorveu nada direito...".

"Está sendo muito difícil, pois é muito desmotivante, cansativo e além de tudo não há o suporte necessário para os estudantes". 

"Tivemos que repor horas com cursos/aulas online e me sinto totalmente perdida pra atuar em laboratório sem ter tido prática". 

Apesar disso, alguns alunos não tiveram uma experiência tão ruim.

"No início as aulas teóricas foram um pouco bagunçadas, mas conforme os professores entendiam a dinâmica da plataforma, foi fluindo mais. Aulas práticas já foram repostas no período que os casos diminuíram e foram maravilhosas, uma pena ter tido poucas vezes".

"As aulas teóricas foram muito boas, até que consegui entender. Os professores conseguiram se adaptar. É um pouco ruim a aula EAD pois existe distrações em torno de nossa casa mas continuamos na luta para ter o registro".

Foi possível observar que, no primeiro semestre de 2020, quando tudo começou, houve mais desorganização. Agora, no segundo semestre deste ano, as instituições conseguiram se adaptar mais e melhorar a qualidade do ensino.

"Aulas teóricas muito boas e práticas repostas, porém muito desprendida do semestre anterior, já nesse semestre ficou bem melhor, aulas online e práticas presenciais, ficou nessa dinâmica. O 3º período foi mais afetado no meu caso. O 4º período já foi mais organizado".


Estágios e TCC

Muitos alunos dos últimos períodos relatam que não tiveram estágio, ou esse foi feito de forma reduzida ou adiado.

"Aulas práticas consegui fazer mas os estágios está sendo muito difícil de achar lugares que queiram os alunos".

"O TCC na forma remota, não foi tão prejudicial, pois acabamos tendo mais tempo para pesquisar e escrever estando em casa. Já o estágio foi triste. Dos 6 meses de estágio obrigatório no laboratório escola, tivemos apenas 1 mês, o resto foi remoto".

"Os estágios obrigatórios irão atrasar bastante pois os laboratórios diminuíram o número de estagiários e os períodos passados ainda nem conseguiram fazer os estágios, então em vez de me formar em 4 anos, vai demorar mais".

"Durante o período da pandemia eu consegui oportunidades de estágio por conta própria, mas a universidade não me liberou para fazer nenhum deles". 

Em relação ao TCC, muitos que estavam fazendo trabalhos experimentais tiveram que trocar para revisão bibliográfica.

"...IC cancelada, pesquisas para TCC também canceladas (pessoal que estava fazendo por pesquisa, passou a fazer do zero revisão bibliográfica do tema)".

"Tive que mudar o TCC completamente, pois seria um experimento e com a pandemia não tinha o laboratório da faculdade disponível para fazer os testes". 

"O estágio fluiu normalmente, apenas tendo os cuidados reforçados, porém fiquei cerca de 5 meses aguardando poder retornar ao laboratório. O TCC foi prejudicado na questão de andamento, infelizmente a orientação presencial acaba sendo, algumas vezes, necessária, mas também correu bem".

Por causa dos estágios e TCCs, muitos alunos tiveram sua formatura adiada.

"O primeiro semestre desse ano seria o meu último de estágio e de curso, com a pandemia o estágio foi suspenso de março até setembro. Minha turma iria formar em junho, mas formou apenas em novembro".

Conclusão

Lendo todos os 198 relatos dos alunos de biomedicina e alguns recém-formados, percebi que foi um ano bem desafiador e desorganizado.

Algumas instituições de ensino foram mais rápidas em se adequar à nova realidade, inovando e minimizando os prejuízos no ensino. Outras, ainda não se organizaram e deixam os alunos perdidos, despreparados e desmotivados.

Sem estágios e aulas práticas presenciais, fica muito difícil formar um biomédico com os conhecimentos e habilidades necessários.

O biomédico é um dos profissionais da saúde mais importantes, ainda mais neste momento em que vivemos. O diagnóstico laboratorial da COVID-19 passa por nossas mãos.

Precisamos de profissionais excelentes, com boa formação, no mercado de trabalho.

Só nos resta esperar e ver como será daqui alguns anos, quando esses alunos se graduarem, e torcer para que o prejuízo na sua formação seja menor do que imaginamos.

Brunno Câmara Autor

Brunno Câmara - Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em patologia clínica e hematologia. Docente do Ensino Superior. Especialista em Hematologia e Hemoterapia pelo programa de Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas - UFG (HC-UFG). Mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (área de concentração: virologia). Coordenador e docente do curso de pós-graduação em Hematologia e Hemoterapia da AGD Cursos. Criador e administrador do blog Biomedicina Padrão. Criador e integrante do podcast Biomedcast.
| Contato: @biomedicinapadrao |