É assim que anticorpos atravessam a barreira placentária

Por Brunno Câmara - quinta-feira, abril 21, 2022


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Para que haja tolerância imunológica materna com o feto e placenta, é necessário que ocorra mudanças adaptativas imunes importantes.

Cerca de 50% dos antígenos do feto têm origem paterna (é praticamente um semi-aloenxerto), o que poderia ser um problema.

Durante a gravidez normal, ocorre transferência fisiológica de imunoglobulinas da mãe para o feto.

O objetivo é fornecer proteção essencial para os primeiros meses de vida quando a resposta humoral (produção de anticorpos) do feto é ineficiente.

A placenta é uma barreira tecidual composta por 3 camadas. Através dela, por mecanismos ativos e passivos, substâncias de baixo peso molecular passam da mãe para o feto.

A imunoglobulina G (IgG), apesar de ter alto peso molecular, é a única imunoglobulina capaz de atravessar a placenta e alcançar a circulação fetal.

Todos os 4 tipos de IgG (1-4) atravessam a placenta. Isso ocorre por meio das células chamadas sinciciotrofoblastos, que compõem uma das camadas do órgão.

Elas expressam receptores para a região Fc da IgG que são chamados de receptores Fc neonatais (FcRn).

O transporte ativo de IgG começa a partir da 13ª semana, e seus níveis no feto vão aumentando com o avanço da gestação.

Entre 17 e 22 semanas, os níveis no feto correspondem a cerca de 5-10% dos anticorpos da mãe. Mas, por volta de 32 semanas, os níveis chegam a 50% dos níveis de IgG da mãe.


Transferência fisiológica

As moléculas de IgG são transferidas a nível de sinciciotrofoblastos, num processo chamado de Transcitose (combinação de endocitose e exocitose).

O pH é um fator crucial para esse processo. A interação entre Fc e FcRn tem alta afinidade em pH < 6,5 e baixa afinidade em pH fisiológico.

A transcitose começa com a internalização de IgG materna dentro de endossomos. Neles, o pH é acidificado e permite com que haja a ligação entre Fc da IgG com o receptor FcRn presente na membrana interna do endossomo.

Esse complexo é então transportado para a membrana basal da célula, onde IgG é liberada ao entrar em contato com o pH fisiológico, e entra na circulação fetal.


Para prolongar a meia vida de IgG e prevenir seu catabolismo, em humanos, as células endoteliais e da medula óssea do feto também expressam o FcRn.

O aumento dos níveis entre os isotipos de IgG é diferente. Já foi descrito que IgG1 é transferida mais rapidamente e que IgG2 é transferida mais lentamente.

No terceiro trimestre, os níveis fetais de IgG ultrapassam os níveis de IgG materna.

Paradoxalmente, em gestantes com altos níveis de IgG, os receptores FcRn ficam supersaturados e as moléculas de IgG não ligadas são destruídas. Isso leva a uma menor transferência de IgG para o feto.

Transferência patológica

A transferência de IgG é muito importante para proteger o bebê nos primeiros meses de vida.

Porém, existem situações em que essa transferência pode provocar danos ao feto, como condições autoimunes e aloimunes.

Algumas dessas condições maternas são:

  • Doença de Graves (anticorpos TRAb)
  • Lupus eritematoso sistêmico (anti-Ro e anti-La)
  • Púrpura trombocitopênica imune (PTI)
  • Miastenia gravis
  • Anemia hemolítica autoimune (anticorpos quentes)
  • Doença hemolítica perinatal (DHPN)
  • Trombocitopenia aloimune

Referência

Ciobanu AM, Dumitru AE, Gica N, Botezatu R, Peltecu G, Panaitescu AM. Benefits and Risks of IgG Transplacental Transfer. Diagnostics (Basel). 2020;10(8):583. Published 2020 Aug 12. doi:10.3390/diagnostics10080583

Brunno Câmara Autor

Brunno Câmara - Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em patologia clínica e hematologia. Docente do Ensino Superior. Especialista em Hematologia e Hemoterapia pelo programa de Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas - UFG (HC-UFG). Mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro (área de concentração: virologia). Criador e administrador do blog Biomedicina Padrão. Criador e integrante do podcast Biomedcast.
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