Como é feito o diagnóstico da leucemia linfocítica crônica (LLC)? Hemograma, esfregaço e imunofenotipagem

Por Brunno Câmara · Publicado em

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Como é feito o diagnóstico da leucemia linfocítica crônica (LLC)

Este post traz as atualizações mais recentes sobre a LLC. Confira!

Definição

A leucemia linfocítica crônica (LLC) é uma neoplasia de células B maduras, caracterizada pela proliferação e acúmulo de linfócitos B clonais, principalmente no sangue periférico, medula óssea, linfonodos e baço. 

Na classificação atual, a LLC integra o grupo das neoplasias de células B maduras e faz parte do mesmo espectro biológico que:

  • Linfocitose B monoclonal (MBL)
  • Linfoma linfocítico de pequenas células (SLL)

Do ponto de vista laboratorial, para caracterizar a LLC é necessário encontrar no hemograma no mínimo 5.000 linfócitos/µL.

É importante que seja uma linfocitose persistente por pelo menos 3 meses, para descartar aumento reacional (em infecções, por exemplo).

A clonalidade dos linfócitos deve ser avaliada por meio da imunofenotipagem por citometria de fluxo.

Etiologia e patogênese

A etiologia da LLC permanece desconhecida. 

Pode haver uma provável participação de fatores genéticos e ambientais, visto que há maior frequência da doença entre familiares de pacientes com LLC e sua distribuição diferente entre populações. 

Cerca de 5% a 10% dos pacientes apresentam histórico familiar, reforçando a contribuição genética.

Do ponto de vista biológico, a doença resulta do acúmulo progressivo de um clone de células B.

Alterações genômicas interferem principalmente nos mecanismos de:

  • Proliferação
  • Apoptose
  • Resposta ao dano do DNA
  • Sinalização celular

Ou seja, os linfócitos doentes se proliferam e não "morrem".

Cerca de 80% dos pacientes apresentam pelo menos uma das alterações cromossômicas mais comuns: 

  • del(13q)
  • del(11q)
  • del(17p)
  • trissomia 12

Entre elas, a del(13q) é a alteração cromossômica mais frequente. 

Já a del(17p) envolve a região onde se encontra o gene TP53, cuja alteração apresenta grande importância prognóstica e terapêutica.

Diagnóstico laboratorial da LLC

Os três pilares são:

  1. Hemograma
  2. Morfologia do sangue periférico
  3. Imunofenotipagem

Hemograma

A alteração clássica é a linfocitose absoluta persistente.

Ou seja, mais de 5.000 linfócitos/µL no sangue periférico por pelo menos 3 meses.

O paciente pode ter associado também anemia e/ou trombocitopenia.

Entre 15 e 30% dos pacientes apresentam citopenias que podem estar relacionadas a infiltração dos linfócitos na medula óssea ou a reações autoimunes, como a anemia hemolítica autoimune.

O hemograma serve para triagem e acompanhamento da persistência da linfocitose, visto que é um exame mais barato e de simples execução.

Porém, não dá para usar somente o hemograma pois é necessário demonstrar que existe uma população B clonal.

Avaliação da morfologia em sangue periférico

A avaliação morfológica deve fazer parte da investigação.

Como são os linfócitos da LLC?

Tipicamente são:

  • Pequenos
  • Maduros
  • Com pouco citoplasma
  • Núcleo denso
  • Cromatina parcialmente condensada
  • Nucléolos não evidentes

Podem coexistir células maiores, formas atípicas e prolinfócitos.

Esfregaço de sangue periférico na LLC

Sombras (manchas) de Gumprecht

As sombras nucleares de Gumprecht, ou smudge cells, representam restos celulares formados principalmente pela fragilidade dos linfócitos doentes durante a preparação do esfregaço.

São um achado morfológico característico e frequente da LLC, mas não estabelecem o diagnóstico isoladamente.

Imunofenotipagem por citometria de fluxo

Este é o exame decisivo para confirmar a natureza clonal da população B.

O perfil clássico da LLC apresenta coexpressão de:

  • CD19+
  • CD5+
  • CD23+

Vale destacar também expressão de CD20 e CD79b geralmente fraca, imunoglobulina de superfície reduzida e restrição para uma das cadeias leves, kappa ou lambda, demonstrando a natureza clonal da população.

Para investigação diagnóstica recomenda-se usar os seguintes marcadores:

  • CD19
  • CD20
  • CD5
  • CD23
  • CD200
  • CD79b
  • kappa e lambda

Marcadores adicionais podem ser incorporados em situações duvidosas ou limítrofes, como:

  • CD43
  • CD81
  • ROR1
  • CD10
  • CD200

Marcador LLC típica
CD19 +
CD5 +
CD23 +
CD200 +
CD20 Fraco
CD79b Fraco
Ig de superfície Fraca
Kappa ou lambda Restrição clonal
CD10 Geralmente negativo
FMC7 Geralmente negativo

É LLC, MBL ou SLL?

Essa diferenciação é essencial para quem trabalha no laboratório.

LLC

Mais de 5.000 linfócitos/µL no sangue periférico por ≥ 3 meses, com fenótipo característico.

MBL

Quando existe população B clonal com fenótipo semelhante à LLC, mas a contagem fica abaixo de 5.000 linfócitos/µL, na ausência de linfadenopatia, organomegalia, citopenias relacionadas à doença ou sintomas, o quadro corresponde à linfocitose B monoclonal.

O consenso brasileiro subdivide ainda:

  • MBL de baixa contagem: < 500 linfócitos/µL
  • MBL de alta contagem: > 500 linfócitos/µL, mas abaixo do critério para LLC

SLL

O linfoma linfocítico de pequenas células pertence ao mesmo processo biológico da LLC, mas predomina nos linfonodos, com pouca ou nenhuma população leucêmica circulante.

É definido pela presença de linfadenopatia, ausência de citopenia provocada por infiltração medular e menos de 5.000 linfócitos/µL no sangue periférico. 

Nessa situação, o diagnóstico deve, sempre que possível, ser confirmado histologicamente em linfonodo.

Medula óssea é necessária para diagnosticar LLC?

Não rotineiramente.

A biópsia de medula óssea e imunofenotipagem do aspirado medular não são recomendadas para o diagnóstico rotineiro da LLC. 

Podem ser utilizadas em situações específicas, principalmente na investigação de citopenias ou quando existe dúvida diagnóstica.

LLC é, em regra, diagnosticada a partir do sangue periférico.

FISH, TP53 e IGHV não são exames para “confirmar LLC”

Testes genéticos podem ser feitos, como:

  • del(17p) por FISH
  • mutação de TP53
  • estado mutacional de IGHV
  • outras alterações citogenéticas

Eles têm importância fundamental principalmente para prognóstico e escolha terapêutica.

Mas, não são necessários para estabelecer o diagnóstico básico de uma LLC típica.

Resumo

Pergunta Resposta
Que célula origina a LLC? Linfócito B maduro clonal
Principal achado do hemograma Linfocitose absoluta persistente
Critério quantitativo ≥ 5.000 linfócitos/µL
Tempo necessário ≥ 3 meses
Morfologia típica Linfócitos pequenos e maduros, cromatina condensada
Achado clássico Sombras de Gumprecht
Exame confirmatório Imunofenotipagem por Citometria de fluxo
Fenótipo clássico CD19+, CD5+, CD23+, CD200+
< 5.000 linfócitos clonais/µL Pensar em MBL conforme contexto
Principal diferencial CD5+ Linfoma de células do manto
Medula óssea obrigatória? Não
FISH/TP53 confirmam diagnóstico? Não, são principalmente prognósticos/terapêuticos

Referências

HALLEK, Michael. Chronic Lymphocytic Leukemia: 2025 Update on the Epidemiology, Pathogenesis, Diagnosis, and Therapy. American Journal of Hematology, v. 100, n. 3, p. 450-480, 2025. DOI: 10.1002/ajh.27546.

CHIATTONE, Carlos Sérgio et al. Diagnosis and treatment of chronic lymphocytic leukemia: 2025 recommendations of the Brazilian Group of Chronic Lymphocytic Leukemia of the Brazilian Association of Hematology and Hemotherapy (ABHH). Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v. 47, n. 2, 103822, 2025. DOI: 10.1016/j.htct.2025.103822.

Brunno Câmara, biomédico e autor do Biomedicina Padrão
SOBRE O AUTOR

Brunno Câmara

Biomédico, CRBM-GO 5596, habilitado em Patologia Clínica e Hematologia. Responsável técnico e gestor da qualidade no Laboratório Clínico do HC-UFG/HU Brasil. Especialista em Hematologia e Hemoterapia e mestre em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro. Atua também na formação de biomédicos e é criador do Biomedicina Padrão.


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