Reticulócitos: entenda RET%, RET#, IRF e Ret-He
A contagem de reticulócitos é um dos principais exames utilizados para avaliar a atividade eritropoiética da medula óssea.
Além de auxiliar na investigação das anemias, a análise automatizada permite obter parâmetros adicionais que fornecem informações sobre a maturação dos reticulócitos e seu conteúdo de hemoglobina.
Mas, apesar dos avanços nas tecnologias, ainda existem diferenças importantes entre os resultados produzidos pelos analisadores hematológicos, especialmente nos parâmetros derivados.
Um estudo conduzido por um grupo de trabalho do International Council for Standardization in Haematology (ICSH), publicado em 2024, investigou a comparabilidade dos resultados de reticulócitos entre diferentes sistemas analíticos e identificou desafios que ainda precisam ser superados para alcançar sua padronização.
O que são reticulócitos
Os reticulócitos são eritrócitos jovens que ainda apresentam material ribossômico residual.
Sua quantificação permite avaliar a resposta eritropoiética, sendo particularmente útil na investigação de pacientes com anemia.
A contagem de reticulócitos auxilia na diferenciação de condições associadas à redução da produção de eritrócitos, como as anemias hipoproliferativas, daquelas relacionadas ao aumento da destruição ou perda sanguínea, como as anemias hemolíticas e as hemorragias.
Tradicionalmente, a contagem é realizada manualmente, utilizando colorações supravitais para evidenciar o material reticular presente nessas células.
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| Coloração de reticulócitos com azul de cresil brilhante |
Com o desenvolvimento dos analisadores hematológicos automatizados, passaram a ser utilizadas metodologias mais sensíveis, incluindo corantes específicos para ácidos nucleicos, fluorescência, dispersão de luz e citometria de fluxo.
Essas tecnologias melhoraram a precisão analítica, aumentaram a eficiência dos laboratórios e permitiram desenvolver novos parâmetros relacionados à biologia dos reticulócitos.
Parâmetros derivados
Além da contagem percentual e absoluta, os analisadores hematológicos modernos podem fornecer índices relacionados à maturidade celular e ao conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos.
A contagem percentual expressa a proporção de reticulócitos em relação ao total de eritrócitos analisados.
No estudo do ICSH, esse foi o parâmetro que apresentou a melhor comparabilidade entre diferentes sistemas analíticos.
A contagem absoluta representa a quantidade de reticulócitos por unidade de volume sanguíneo.
Diferentemente da contagem percentual, esse resultado é calculado a partir de dois parâmetros: a porcentagem de reticulócitos e a contagem total de eritrócitos.
Contagem absoluta de reticulócitos = RET% × contagem de eritrócitos
Fração de reticulócitos imaturos (IRF)
A Immature Reticulocyte Fraction (IRF), ou fração de reticulócitos imaturos, é um parâmetro relacionado ao grau de maturação dos reticulócitos circulantes.
Nos analisadores automatizados, os reticulócitos são classificados em subpopulações conforme seu grau de maturidade, utilizando tecnologias e algoritmos específicos de cada fabricante.
Esse parâmetro acrescenta informações sobre a atividade eritropoiética, mas apresenta um importante problema analítico: os resultados de IRF produzidos por diferentes equipamentos ainda não são suficientemente harmonizados.
Consequentemente, a interpretação da IRF exige atenção à metodologia empregada, especialmente quando resultados obtidos em equipamentos diferentes são comparados.
Conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos (RHC)
O conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos, denominado no estudo como Reticulocyte Hemoglobin Content (RHC), fornece uma medida relacionada à quantidade de hemoglobina presente nos reticulócitos.
Esse parâmetro acrescenta informações sobre a hemoglobinização dos eritrócitos jovens e representa um dos avanços proporcionados pela análise automatizada.
Mas, sua determinação não é uniforme entre os fabricantes. Diferentes sistemas utilizam tecnologias e cálculos próprios, além de nomenclaturas específicas.
Entre as denominações apresentadas no artigo, destacam-se:
| Parâmetro | Fabricante |
|---|---|
| Ret-He | Sysmex |
| CHr | Siemens e Mindray |
| MCHr | Abbott |
| RhCc | Horiba |
Embora esses parâmetros estejam relacionados ao conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos, não se deve assumir que seus valores são diretamente intercambiáveis entre diferentes sistemas analíticos.
No estudo, o RHC apresentou concordância intermediária entre a contagem percentual de reticulócitos e a IRF.
Resultados do estudo
Para investigar a comparabilidade dos resultados, os pesquisadores analisaram 855 amostras de pacientes, provenientes de seis instituições, utilizando nove modelos distintos de analisadores hematológicos.
Foram realizadas 15 comparações entre sistemas analíticos, com avaliação de três parâmetros: RET%, IRF e RHC.
Os resultados demonstraram diferenças importantes na comparabilidade e na precisão dos parâmetros.
Imprecisão analítica
A imprecisão foi avaliada por meio dos coeficientes de variação (CV) obtidos a partir de medições repetidas das amostras.
O conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos apresentou a menor imprecisão, enquanto a IRF demonstrou a maior variabilidade entre as medições.
Esses resultados mostram que a incorporação de novos parâmetros ao laudo hematológico deve considerar não apenas sua utilidade clínica, mas também seu desempenho analítico.
Desafios
Um dos principais problemas identificados pelos pesquisadores é a ausência de materiais de referência com comutabilidade adequada para os diferentes sistemas analíticos.
A comutabilidade é a propriedade que permite que um material utilizado na avaliação laboratorial apresente comportamento comparável ao das amostras de pacientes quando analisado por diferentes métodos.
No caso dos reticulócitos, essa padronização é dificultada pela instabilidade das amostras, principalmente dos parâmetros relacionados à detecção de RNA residual.
Além disso, os fabricantes utilizam diferentes reagentes, tecnologias de detecção e algoritmos para calcular os parâmetros derivados.
Aplicação no laboratório clínico
A principal implicação é que a disponibilidade de um parâmetro no analisador hematológico não garante que seus resultados possam ser comparados diretamente aos de outros equipamentos.
A contagem percentual de reticulócitos apresentou melhor concordância entre os sistemas avaliados, enquanto a IRF demonstrou diferenças mais expressivas.
O conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos, embora tenha apresentado boa precisão nas medições repetidas, também apresentou diferenças metodológicas relevantes.
Então, se seu laboratório for incorporar esses parâmetros da automação no laudo, é importante que esteja explícito qual o analisador e metodologia foi utilizada.
Se você já faz contagem de reticulócitos manualmente, sabe que a automação transformou a análise de reticulócitos, permitindo que o laboratório clínico obtenha informações mais detalhadas sobre os eritrócitos jovens.
A padronização desses "novos" parâmetros ainda é um desafio importante para a hematologia laboratorial.
Referências
OBSTFELD, Amrom E. et al. Report of the International Council for Standardization in Haematology working group for standardization of reticulocyte parameters. International Journal of Laboratory Hematology, v. 46, n. 2, p. 266-274, 2024. DOI: https://doi.org/10.1111/ijlh.14209.
CELLWIKI. RET - Normal. CellWiki: Hematology, [s. d.]. Disponível em: https://www.cellwiki.net/en/scatters/ret-normal. Acesso em: 20 out. 2026.